Baião de Dor
Autoria da Obra: Wagner Ventura
Mural feito com colagem de páginas de revista e tinta hidrocor sobre uma parede inteira do Centro Acadêmico de Historia (CAHIS), representando a moradia estudantil que existiu entre 1980 e 1999 com a ocupação do edifício do antigo hospital Borges da Costa, no Campus Saúde (atrás da Escola de Medicina da UFMG) por estudantes de vários cursos da UFMG. Representa também a desocupação truculenta realizada pelas polícias civil e militar sob ordem da reitoria da UFMG, em 1999.
A composição trás, em primeiro plano, duas figuras antropomórficas, sendo uma apresentada com as mãos e pernas atadas, segurando uma espada. Sua cabeça é composta por pequenas imagens de cabeças humanas, e de sua espada cai uma gota composta por inúmeras imagens de bonecas de bebês. A segunda figura tem sua cabeça invertida, “de cabeça para baixo”, sobre o corpo, e sua boca segura uma flor. Representam a dor física sentida pelos estudantes retirados à força de suas camas antes do amanhecer, em ação que feriu os direitos humanos. Ao centro, um violino é representado, simbolizando uma música triste que seria o Baião de Dor. Ao fundo, uma edificação simboliza a moradia Borges da Costa, sob um sol brilhante. Predomina na compposição as cores vermelho e azul, com muitos detalhes em amarelo e outras cores.
Histórico da obra:
O mural foi encomendado pela gestão Mãos à Obra que dirigiu o CAHIS entre 1998 e 1999. O CAHIS, assim como outras entidades estudantis da UFMG, como o DCE, juntamente a entidades docentes, como a Congregação da FaFiCH, manifestaram-se contra a desocupação violenta da moradia universitária. A Congregação, onde o representante do CAHIS era Pablo Lima, redigiu uma Moção de Repúdio à ação violenta realizada dentro do Campus por ordem da Reitoria.
À época a UFMG não possuía uma moradia como hoje no bairro Ouro Preto. A área do Campus Pampulha designada originalmente para a edificação de uma moradia, recebeu a construção do que é hoje a Praça Vermelha ou Praça de Serviços, em 1992, sob a reitoria de Vanessa Guimarães (e, portanto costuma ser apelidada de Vanessão). A única moradia universitária era a ocupação do Borges da Costa, organizada pelos próprios estudantes, totalmente gratuita para os moradores que em 1999 eram cerca de 70 a 100 alunos. Desde sua ocupação, as gestões da reitoria foram contrárias, mas compreendiam a necessidade de uma moradia e forneciam inclusive seguranças para a portaria do Borges da Costa. Apenas na gestão do reitor César de Sá Barreto foi ordenado à desocupação pela polícia, ferindo o princípio da autonomia universitária e sob o pretexto de que a edificação abrigaria um hospital para o tratamento de câncer (o que até hoje não se realizou). O episódio foi marcado por inúmeros abusos da polícia que chegou a prender um estudante de biologia sob acusação do plantio de maconha por encontrarem em seu quarto uma muda de Pau-Brasil.
O CAHIS contratou o aluno de História da UFMG e de Artes Plásticas da Escola Guingard, e ex-morador do Borges da Costa, Wagner Ventura, para criar um mural em memória e homenagem da moradia Borges da Costa. Cabe lembrar que o Borges, como costumava ser chamado, era um local que reunia muitas festas universitárias, shows de música, teatro, performances, sendo frequentado por muitos universitários, em especial alunos da Medicina, Fafich, Belas Artes, entre outros cursos.
A intenção do mural é não deixar que a memória do Borges da Costa se apague e lembrar que foi graças à pressão realizada por esta ocupação de duas décadas, e após a desocupação violenta, que a UFMG iniciou uma política de moradia estudantil, construindo os prédios do bairro Ouro Preto. Ou seja, a moradia da UFMG de hoje não foi uma mera concessão da reitoria, mas uma reivindicação do Movimento Estudantil fortalecida pela resistência da ocupação do Borges da Costa. Após a desocupação, com a demora na construção da nova moradia no bairro Ouro Preta, os estudantes que foram desocupados do Borges da Costa ficaram sem moradia durante cerca de um ano. Alguns chegaram a residir na sede do DCE-UFMG, à Rua Guajajaras, como uma aluna de medicina, vinda do Norte de Minas, e seu filho de 6 anos, que testemunhou a desocupação e viu sua mãe sendo espancada pela polícia ao alvorecer. A desocupação foi toda gravada pela Rede Bandeirantes de Televisão e veiculada em seus telejornais. À época, o Movimento Estudantil teve acesso e reproduziu a gravação sem edição, realizando diversas exibições na UFMG, sensibilizando a comunidade universitária para o problema da moradia e da prática de ações violentas da polícia a mando da reitoria.
Após o término da gestão Mãos à Obra, as futuras gestões realizaram diversas alterações na sala do CAHIS, mas mantiveram o mural em homenagem aos estudantes e como marco dos tempos do Borges. Hoje, dez anos depois do fato e da elaboração da obra, é possível considerar o mural como um patrimônio cultural da FaFiCH.
Pablo Luiz de Oliveira Lima.
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